Em Cuba, abastecer o carro se tornou uma odisseia extenuante, com esperas que se prolongam por semanas ou até meses. O aplicativo El Ticket, projetado para gerenciar essa escassez de gasolina, destaca as falhas de um sistema já frágil, intensificando a frustração dos cidadãos em meio a uma crise energética sem precedentes.

Uma crise energética geopolítica
No início do ano, Cuba enfrentou uma grave crise energética, resultado direto de uma forte diminuição em suas importações de petróleo. A Venezuela, um parceiro histórico, interrompeu suas entregas após a prisão de Nicolás Maduro pelas autoridades dos Estados Unidos. Essa situação foi agravada pelas ameaças de sanções de Washington contra os países exportadores de petróleo para Havana, incluindo o México, que cessou suas exportações. O presidente Donald Trump ressalta essa pressão econômica, enquanto o líder cubano Miguel Díaz-Canel fala de um “bloqueio energético”. Esse contexto levou a uma diminuição da produção de petróleo refinado, causando interrupções de energia e um abastecimento de gasolina insuficiente para atender à crescente demanda.

El Ticket: uma vitrine do racionamento digital
Para tentar regular essa escassez, o governo cubano impôs o uso do aplicativo El Ticket. Esse sistema visa limitar o acesso à gasolina e prevenir aglomerações nos postos de combustíveis. No entanto, a realidade é muito mais complexa. Os usuários devem selecionar um posto e garantir uma vez para abastecer, mas alguns postos disponibilizam apenas 50 atendimentos por dia, deixando os motoristas enfrentando filas virtuais que podem chegar de 7.000 a 10.000 solicitações à frente da sua. A espera pode se prolongar por semanas ou até meses, e quando finalmente chega a sua vez, o volume é limitado a 20 litros. Enquanto isso, as vendas subsidiadas em moeda local foram suspensas, fazendo o preço subir para cerca de $1,30 por litro nos postos oficiais, enquanto as tarifas do mercado negro disparam até $6 por litro.
Desigualdades em meio à escassez
Nesse esforço de organização, o aplicativo transforma simplesmente uma fila física em uma virtual, sem oferecer uma solução real para os cubanos. Os veículos ligados ao turismo recebem tratamento preferencial com postos dedicados, ilustrando a importância de preservar as receitas em moeda estrangeira. Essa prioridade para o setor turístico ressalta a fragilidade econômica do país, que enfrenta interrupções de energia crescentes e restrições em outras áreas, como horários bancários e transporte aéreo.
As consequências de uma gestão caótica
A situação atual destaca as carências de um sistema que luta para se adaptar aos desafios contemporâneos. O racionamento digital apenas exacerba o descontentamento dos cubanos, aprisionando-os em um ciclo de espera interminável. Além disso, a crise do gás é apenas uma parte de um panorama mais amplo: as interrupções de energia são generalizadas e os eventos comerciais estão sendo adiados para conservar combustível e energia. Essa realidade sublinha a dependência de Cuba de fornecedores externos e a vulnerabilidade de seu sistema energético em meio a tensões diplomáticas.
Rumo a um futuro incerto
No médio prazo, a situação energética de Cuba pode evoluir para tensões sociais aumentadas se não for encontrada uma solução sustentável. Alternativas, como acelerar os investimentos em energias renováveis, parecem ainda distantes. O governo terá que enfrentar decisões difíceis entre preservar a economia turística e atender às necessidades básicas de sua população. Se a crise atual persistir, pode ter repercussões duradouras na imagem do país no cenário internacional.
Em resumo
- Cuba enfrenta uma grave escassez de gasolina devido a fatores geopolíticos.
- O aplicativo El Ticket tenta regular o acesso à gasolina, mas cria desigualdades.
- O setor turístico recebe tratamento preferencial em meio à crise.
- As interrupções de energia e as restrições econômicas agravam a situação.
- O futuro energético do país permanece incerto sem soluções sustentáveis.


