O barulho que virou problema
Parece piada de mau gosto, mas é fato: a Ford está chamando de volta aos Estados Unidos mais de 66 mil SUVs híbridos porque eles fazem pouco barulho. Sim, você leu certo. Em um mundo onde o ronco de um V8 é sinônimo de potência e adrenalina, o silêncio de um motor elétrico ou híbrido se tornou um problema de segurança tão sério que exige recall. É o mundo dando voltas, ou melhor, andando em modo elétrico sem ser notado.
A culpa é do software (e da lei)
O cerne da questão reside em uma falha no processamento de áudio que afeta o Sistema de Alerta Acústico de Veículos (AVAS, na sigla em inglês). Documentos enviados pela Ford à NHTSA, a agência de segurança viária americana, revelam que o sistema pode, intermitentemente, deixar de emitir o som necessário quando o carro está em modo puramente elétrico e rodando abaixo dos 30 km/h. É exatamente nessa faixa de velocidade que o perigo se instala: em estacionamentos, ruas residenciais tranquilas ou condomínios, onde o ruído de um motor a combustão tradicional não está presente para alertar pedestres e ciclistas.
Nos Estados Unidos, a norma Federal Motor Vehicle Safety Standard nº 141 exige que veículos híbridos e elétricos emitam sons audíveis para indicar sua presença, direção e movimento em velocidades de até 30 km/h. Acima disso, o barulho dos pneus e do vento já é considerado suficiente. O AVAS, composto por alto-falantes externos e um módulo eletrônico, é o responsável por criar um som artificial, que varia em intensidade e frequência conforme a aceleração, simulando a presença de um motor.
O recall dentro do recall
O mais curioso dessa história é que não é a primeira vez que esses modelos enfrentam esse problema. Parte dos veículos convocados já havia passado por um recall similar em 2025. A solução implementada na época, no entanto, mostrou-se insuficiente, levando a Ford a ampliar a convocação e a solicitar que os carros já reparados retornem às concessionárias. Ou seja, uma segunda visita à oficina pelo mesmo motivo. É o famoso “recall do recall”, uma dor de cabeça em dobro para o proprietário e um sinal de que a tecnologia, por vezes, nos prega peças inesperadas.
A suspeita da montadora recai sobre o software do Digital Signal Processor (DSP), o módulo que gerencia o sistema de áudio do carro. Nos veículos elétricos e híbridos da Ford, o DSP não se limita a tocar sua playlist favorita; ele também é o maestro por trás do som externo do AVAS. A natureza intermitente da falha, porém, ainda mantém a fabricante investigando outras possíveis causas. Quando o sistema detecta o mau funcionamento, o motorista é alertado no painel com a mensagem “Pedestrian Sounder Fault. Service Now” – um convite nada discreto para procurar a oficina. Felizmente, até o momento, não há registros de acidentes ou feridos relacionados a essa falha.
Silêncio que assusta outros carros
A Ford não está sozinha nessa batalha contra o silêncio excessivo. Em março de 2026, o Toyota Corolla Cross Hybrid também foi chamado para um recall nos EUA por uma falha semelhante no sistema de alerta sonoro. E, em um episódio que beira o surreal, em julho de 2025, o Dodge Charger Daytona elétrico, um “muscle car” por natureza, passou por um recall por ser silencioso demais. É a prova de que a eletrificação, apesar de suas inúmeras vantagens, nos força a repensar conceitos que pareciam imutáveis no mundo automotivo.
Essa situação levanta um debate interessante sobre como a indústria automotiva está se adaptando às novas tecnologias e, principalmente, às regulamentações que surgem para garantir a segurança em um cenário em constante evolução. O que antes era um ronco potente e desejado, hoje pode ser um problema se não houver um contraponto sonoro que garanta a convivência harmoniosa entre os diferentes modais de transporte.
O dilema do “som ambiente”
Para nós, brasileiros, a notícia serve mais como um alerta sobre as tendências globais e as complexidades que envolvem a introdução de veículos híbridos e elétricos em larga escala. A tecnologia AVAS é essencial para a segurança, especialmente em um trânsito tão caótico e diversificado quanto o nosso, onde a atenção de todos é fundamental. O desafio é encontrar um equilíbrio: o som precisa ser perceptível o suficiente para alertar, mas não a ponto de se tornar irritante ou criar poluição sonora desnecessária.
Enquanto a Ford e outras montadoras trabalham para refinar esses sistemas, o recall nos EUA nos lembra que a inovação automotiva nem sempre é um caminho reto e sem obstáculos. Às vezes, é preciso dar um passo atrás, ajustar os parafusos (ou os softwares) e garantir que a segurança ande de mãos dadas com o progresso. E, quem sabe, talvez um dia possamos ter carros elétricos que emitam um “ronco” tão característico quanto os motores a combustão, mas de uma forma totalmente nova e sustentável.
Pontos cruciais do recall
- Modelos Afetados: Ford Explorer Hybrid (2025-2027) e Lincoln Nautilus Hybrid (2024-2027) nos EUA.
- Motivo: Falha intermitente no Sistema de Alerta Acústico de Veículos (AVAS) em baixas velocidades (abaixo de 30 km/h) no modo elétrico.
- Risco: Veículos podem não ser percebidos por pedestres e ciclistas, aumentando o risco de acidentes.
- Regulamentação: Exigência da NHTSA (EUA) para que veículos híbridos e elétricos emitam sons de alerta.
- Histórico: Parte dos veículos já havia passado por um recall anterior pelo mesmo problema.
- Solução: Nova correção de software para o sistema AVAS.
- Sem Acidentes Registrados: Até o momento, não há relatos de acidentes ou feridos ligados à falha.










