No mundo frenético do MotoGP, a comunicação entre os pilotos e suas equipes sempre foi um desafio. Enquanto as motos rugem na pista, os pilotos frequentemente se encontram isolados, recebendo apenas mensagens rudimentares. Mas com a introdução potencial do rádio, podemos esperar uma evolução ou é apenas um gadget supérfluo?
Um sistema arcaico a modernizar
Quando um piloto de MotoGP dá a largada, ele se encontra em um mundo onde a comunicação direta com sua equipe é quase inexistente. As informações chegam até ele principalmente por meio de painéis de sinalização e algumas mensagens pré-gravadas exibidas em seu painel. Em caso de incidente, a direção de prova também utiliza essa ferramenta rudimentar, complementada por bandeiras e sinais luminosos espalhados ao longo da pista.
A comunicação nem sempre é fluida. Lembra-se, por exemplo, de Aleix Espargaró que, no Grande Prêmio da Catalunha em 2022, confundiu a chegada com uma volta a mais. Felizmente, o MotoGP está ciente das lacunas desse sistema e trabalha há vários anos em um projeto de integração do rádio para melhorar as trocas entre os pilotos e suas equipes.
Testes promissores, mas delicados
Os testes se multiplicaram ao longo do ano de 2025, com o objetivo de aprimorar um sistema que poderia, a longo prazo, lembrar o utilizado na Fórmula 1. A ideia inicial, que consistia em transmitir mensagens pré-gravadas, evoluiu para uma comunicação interativa entre a equipe e o piloto, permitindo que estes respondessem em tempo real.
No entanto, essa inovação não deixa de suscitar debates. No paddock da F1, as trocas de rádio podem influenciar as decisões dos comissários, às vezes em detrimento do espírito esportivo. À medida que o MotoGP se torna propriedade da Liberty Media, podemos imaginar que os pilotos comecem a se comunicar ao vivo com o público durante as corridas?
Pilotos divididos sobre a ideia
Johann Zarco, durante um encontro com seus fãs após sua vitória no GP da França, mencionou essa possibilidade. Ele admitiu que o desenvolvimento do sistema poderia oferecer um conteúdo enriquecedor para os telespectadores: “O sistema, por enquanto, eles querem desenvolvê-lo para dar conteúdo aos telespectadores. É verdade que isso pode ser pequenos momentos de troca.” Mas ele permanece ciente dos desafios: “Vocês vão ouvir bips o tempo todo!”
Por outro lado, seu compatriota Fabio Quartararo se mostra mais cético. Para ele, a comunicação na moto não é tão fácil quanto no carro. “Sinceramente, eu acho que nós não vamos falar muito,” explica. “Já não é o mesmo esforço físico. Nós nos movemos muito na moto, então é principalmente para ouvir os engenheiros que outra coisa.”
Para Quartararo, as mensagens enviadas pela equipe não teriam realmente impacto em seu desempenho: “Isso não vai mudar nada para nós porque, no final, não importa o estado dos pneus, temos que terminar a corrida.”

Fabio Quartararo
Os desafios técnicos a superar
Apesar do potencial interesse por esse sistema de comunicação, vários obstáculos ainda precisam ser superados. Durante testes no circuito de MotorLand Aragón, a qualidade de áudio foi considerada insuficiente. Zarco até criticou os chiados que tornavam o sistema quase inutilizável: “É insensato estar tão perto do microfone.”
O MotoGP optou por não usar fones de ouvido como os da F1, preferindo um sistema de condução óssea. Isso permite que os pilotos permaneçam alertas em relação aos elementos ao seu redor. No entanto, isso apresenta um problema: os capacetes ajustados que os pilotos usam não permitem o uso de fones com redução de ruído.
Como explica Zarco: “Estamos muito expostos ao vento… Um piloto de Fórmula 1 está melhor protegido. Ele pode usar um bom fone com som de qualidade.”

Johann Zarco
Uma questão de equilíbrio
Zarco também destaca as complicações relacionadas ao tamanho dos capacetes usados no MotoGP: “Atualmente, aqueles que tentaram esse grande fone de Fórmula 1 dizem que dói muito no tipo de capacete que usamos.” A forma dos capacetes atuais dificulta a integração de dispositivos de áudio de alto desempenho.
Esse problema complica bastante a comunicação entre os pilotos e suas equipes. Zarco insiste que, quando testou o sistema, teve dificuldade em ouvir as informações transmitidas, e que as equipes provavelmente precisariam esperar que ele parasse para captar sua voz: “Uma hora a gente se move para a esquerda, outra hora para a direita… isso balança.”
Um futuro incerto, mas intrigante
Se esses problemas técnicos forem resolvidos, ainda resta debater o impacto que essa comunicação poderia ter na concentração dos pilotos durante a corrida. Quartararo admite que isso não o incomodaria muito: “Isso não incomoda muito,” diz ele. Os pilotos parecem capazes de filtrar as mensagens, mesmo que Álex Márquez precise esclarecer: “Talvez se eles enviarem uma única mensagem, a ouviremos. Se for o tempo todo, paramos de ouvir.”
Enquanto o MotoGP continua a explorar essas novas avenidas, o futuro da comunicação entre os pilotos e suas equipes permanece tão fascinante quanto incerto. Entre o desejo de inovar e a necessidade de preservar o espírito de competição, um delicado equilíbrio precisará ser encontrado.

Johann Zarco
