Em 2023, a União Europeia votou a proibição da venda de carros a combustão novos a partir de 2035. Apresentada como uma virada ecológica importante, essa decisão deveria acelerar a transição para o 100% elétrico.
Dois anos depois, a questão muda de natureza. Não se trata mais de: “É preciso abandonar os motores a combustão?” Mas sim: “A Europa subestimou as consequências industriais, econômicas e geopolíticas de sua decisão?”
Pois enquanto Bruxelas fixa datas, o resto do mundo avança… de outra forma.
A Europa: convicção ecológica ou aposta industrial arriscada?

A União Europeia fez uma escolha clara: abandonar o motor a combustão. Mas essa escolha se baseia em várias hipóteses frágeis:
- Uma adoção massiva e rápida do veículo elétrico.
- Uma queda contínua no custo das baterias.
- Uma independência industrial suficiente em relação à China.
- Uma aceitação social sem sobressaltos.
No entanto, os fatos recentes mostram fissuras: as vendas de veículos elétricos estão desacelerando em vários países europeus, os subsídios públicos estão mudando, e vários fabricantes estão revisando seus cronogramas.
O problema não é tecnológico. É estrutural. A Europa não controla nem as matérias-primas estratégicas (lítio, cobalto, terras raras), nem a maioria da produção mundial de baterias.
Em outras palavras: a UE decidiu abandonar uma tecnologia que dominava (a combustão) para acelerar em direção a uma tecnologia cuja cadeia de valor (baterias, refino, metais críticos, produção de células) ainda não domina totalmente.
A China: pragmatismo industrial em vez de ideologia

Enquanto a Europa debate ideologia climática, a China avança com método. Grupos como BYD estão ganhando terreno, e as baterias LFP produzidas em massa agora dominam uma parte do mercado.
Mas, acima de tudo, Pequim nunca apresentou o elétrico como uma proibição moral do a combustão. É uma ferramenta de dominação industrial:
- Subsídios e apoio massivo à cadeia produtiva.
- Segurança no fornecimento de metais.
- Capacidade de produção gigantesca.
- Estratégia de exportação agressiva em termos de preços.
Resultado: os fabricantes europeus se veem confrontados com modelos chineses mais baratos, tecnologicamente avançados e produzidos em grande escala.
Os Estados Unidos: flexibilidade estratégica

Nos Estados Unidos, a estratégia é diferente: a administração incentiva o elétrico por meio de incentivos fiscais, enquanto evita (até agora) uma proibição federal rígida comparável à da Europa.
Os pick-ups a combustão continuam dominantes, os híbridos estão progredindo fortemente, e os fabricantes ajustam suas linhas de produtos de acordo com a demanda real do mercado. Washington apoia a inovação e protege sua indústria por meio de políticas industriais direcionadas, mas mantém uma margem de manobra.
Os números que incomodam
Desde 2024:
- Vários fabricantes revisaram para baixo suas metas de 100% elétricos.
- Os híbridos estão apresentando um crescimento mais dinâmico do que os elétricos puros.
- Fábricas dedicadas a baterias estão operando abaixo das capacidades previstas.
- Os subsídios públicos estão diminuindo em alguns países.
O elétrico ainda avança, mas menos rápido do que o previsto… e muitas vezes mais caro do que o previsto.
O comprador médio europeu enfrenta três realidades:
- Preço de compra elevado para equipamentos comparáveis.
- Valor residual incerto no mercado de usados.
- Infraestrutura de recarga desigual de acordo com as regiões e os usos.
O risco? Um rejeição social progressiva, não contra a ecologia, mas contra uma transição vivida como imposta e desigual.
Transição ecológica… ou choque social?
O carro não é um produto de luxo: é uma ferramenta cotidiana para milhões de famílias. Ao impor um cronograma rígido, a Europa assume um risco político significativo: transformar uma ambição climática em fractura social.
As classes urbanas favorecidas se adaptam mais facilmente. As zonas rurais e periurbanas, menos. No entanto, são frequentemente essas áreas que mais dependem do carro para trabalhar, se deslocar e viver.
O ponto cego: a pegada de carbono global
Outro assunto sensível: o ciclo de vida completo. A produção de baterias é intensiva em energia. A reciclagem em massa ainda não está totalmente industrializada em todos os lugares. O balanço de carbono real de um veículo elétrico também depende da matriz energética.
O elétrico reduz as emissões locais. Mas seu balanço global depende fortemente de como a eletricidade é produzida e da capacidade de organizar uma cadeia de reciclagem eficaz em grande escala.
A transição é, portanto, mais complexa do que uma simples substituição de combustão → elétrico.
Três cenários para 2035
1) Manutenção estrita do cronograma
A Europa assume sua aposta, reforça massivamente sua indústria de baterias e aceita um período de turbulências (custos, pressão concorrencial, tensões sociais).
2) Flexibilização estratégica
Prorrogação parcial via híbridos, combustíveis sintéticos ou exceções temporárias. Adaptação progressiva de acordo com o mercado.
3) Adiamento oficial
Diante das realidades econômicas, industriais e sociais, um adiamento se torna politicamente inevitável.
Hoje, nenhum cenário está excluído.
A verdadeira questão
O debate não deve opor ecologia e indústria. Deve levantar uma questão mais profunda:
É possível ter sucesso em uma revolução tecnológica sem dominar as ferramentas industriais dessa revolução?
A Europa tomou uma decisão corajosa. Mas uma decisão corajosa não é automaticamente uma decisão estratégica.
2035 se aproxima. E o mundo automotivo já está redesenhando seus equilíbrios, entre a potência industrial chinesa, a flexibilidade americana e a aposta europeia em uma transição juridicamente fechada.
A questão não é mais saber se a combustão desaparecerá um dia. A questão é saber a que preço, e quem controlará o futuro do automóvel.
