A temporada de 2026 da Fórmula 1, apesar dos debates intensos sobre regulamentos, tem sido surpreendentemente tranquila para os comissários. No entanto, o recente GP do Canadá trouxe à tona uma tendência preocupante: o uso cada vez menor dos pontos de penalidade na Superlicença.
Início de temporada com mão leve
Após GPs da Austrália, China e Japão sem grandes incidentes disciplinares, o GP do Canadá viu um retorno das intervenções dos comissários. Contudo, uma constância chama a atenção: nenhum ponto de penalidade foi aplicado na Superlicença em 2026. Um contraste gritante com temporadas anteriores, onde as punições esportivas vinham acompanhadas de pontos, por vezes repetidamente.
Essa mudança segue uma tendência dos últimos anos, após discussões acaloradas sobre os casos de Pierre Gasly no fim de 2022 e Oliver Bearman em 2024. As entidades máximas parecem ter adotado uma abordagem mais ponderada, buscando evitar suspensões de pilotos por infrações consideradas menores, ao mesmo tempo em que esperam manter o propósito do sistema: punir faltas graves e dissuadir a reincidência.
Comissários optam pela cautela
O GP do Canadá ofereceu exemplos claros dessa nova doutrina. Isack Hadjar, piloto da Red Bull, foi penalizado duas vezes. Sua defesa contra Charles Leclerc, com múltiplas mudanças de direção, resultou em dez segundos de punição, mas sem nenhum ponto em sua licença. Uma decisão alinhada com a tendência atual para infrações desse tipo, potencialmente perigosas, mas sem intenção clara.
Na mesma corrida, Oscar Piastri recebeu dez segundos por colidir com Alexander Albon, novamente sem pontos de penalidade. Na China, Esteban Ocon já havia recebido a mesma punição por um toque com Franco Colapinto, sem que pontos fossem atribuídos. Esses casos, onde a responsabilidade é clara e a falha evidente, levantam dúvidas sobre a real severidade na aplicação dos pontos de penalidade.
No entanto, uma das punições aplicadas a Hadjar em Montreal levanta ainda mais questões. O piloto francês recebeu um stop-and-go de dez segundos, uma das sanções mais pesadas antes da desqualificação, por não ter reduzido a velocidade de forma “significativa” sob bandeira amarela dupla. Uma infração a uma regra de segurança fundamental, mas que, mais uma vez, não resultou em pontos de penalidade.
2026: Mudança de filosofia nas punições?

Os pilotos têm defendido uma aplicação mais flexível das sanções. Informações apuradas pelo Motorsport.com revelam que uma discussão ocorreu neste inverno entre a FIA e os pilotos. Estes últimos expressaram o desejo por uma aplicação mais indulgente do sistema de pontos, visando punir apenas comportamentos considerados voluntários ou irresponsáveis.
Essa mudança de paradigma se reflete nas diretrizes fornecidas aos comissários para 2026. O documento agora especifica que, para certas infrações, o número de pontos de penalidade pode ser modulado, variando de zero ao limite máximo. Embora isso não altere radicalmente a prática passada, o foco na possibilidade de não aplicar pontos é revelador.
Para bandeiras amarelas duplas, a sanção esportiva continua sendo um stop-and-go de dez segundos, com a possibilidade de atribuir até três pontos de penalidade. O mesmo vale para mudanças múltiplas de direção. No entanto, em relação às colisões, a doutrina evolui. Agora, especifica-se que os pontos devem ser ajustados “em relação à severidade do incidente provocado”.
Um “toque” ou contato muito leve não poderá mais resultar em sanção, com um máximo de zero ponto de penalidade. Em contrapartida, para colisões com intenção “aparentemente deliberada ou irresponsável”, quatro pontos permanecem teoricamente possíveis.
Permissão de pontos da F1: Uma casca vazia?

Kevin Magnussen é o único piloto suspenso pelo sistema de pontos desde 2014.
A intenção de suavizar a aplicação dos pontos de penalidade é clara. Menos sanções para focar nas mais graves, talvez. Mas se o desrespeito às bandeiras amarelas não é mais considerado uma infração grave o suficiente para merecer pontos, qual é o limite?
Levando a lógica ao extremo, poderíamos questionar se um incidente como o de Max Verstappen e George Russell na Espanha em 2025, considerado por muitos como intencional ou, no mínimo, irresponsável, teria sido punido com pontos em 2026. Se até infrações a regras de segurança fundamentais não geram mais pontos, o sistema parece perder sua substância.
O sistema de permissão de pontos, pensado em 2014 para punir faltas graves e prevenir a reincidência, parece hoje esvaziado de sua missão principal. Ele se aplica apenas em casos extremos, quase inexistentes, e não considera mais adequadamente a noção de reincidência. A questão, portanto, se impõe: ainda é relevante manter esse sistema como está? A dúvida é permitida.
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